Roger Machado não é Jorge Jesus por causa do preconceito.

Como treinador, falta a Roger o carinho e a paciência que os brasileiros têm com os que vem de fora. Além disso, o ex-lateral do Imortal - e hoje comandante do Bahia há mais de um ano - é preto e precisa romper as barreiras do preconceito, o que é muito triste.





Preto, iniciando a carreira e brasileiro. Isso separa Jorge Jesus de Roger Machado em relação às ideias e filosofias de trabalho. Vejo no Roger muita coisa do treinador gringo, e explico.


Roger Machado, quando trouxe o tiki-taka para o Brasil, pois aqui não era praticado um futebol vistoso, foi visto na aldeia como um visionário. Sério, levando à risca suas ideias e filosofia de trabalho, Roger rapidamente conquistou espaço e era visto como um grande treinador que estava surgindo no cenário brasileiro. 
A seriedade, o não poupar jogadores, os treinos exaustivos, o toque de bola envolvente e o estilo Guardiola enchiam os olhos de quem assistia ao Grêmio jogar. Isso ficou evidente na estreia de Roger na Arena, contra o Corinthians. Em 15 minutos de jogo, um Grêmio avassalador já aplicava dois a zero no Corinthians. Eu, que cheguei atrasado ao estádio, perdi os dois gols. 
Pois bem, Jorge Jesus é europeu. Tem rodagem, bagagem. Tem títulos em Portugal e fora do país. Vocês devem estar pensando que sou louco e quero comparar os dois. NÃO. Eu não estou comparando currículo, títulos. Nisso, Jesus indiscutivelmente ganha. Os números comprovam. Falo aqui de filosofia de trabalho. Mentalidade vencedora, competitividade, futebol arte, novidade. Tudo isso Roger trouxe para aquele Grêmio de 2016
Porém, não conseguia mais tirar nada do time. Talvez o vestiário seja uma das causas, pois muitos dizem que Roger é péssimo nas relações. Pode ser. Mas, e se Roger, com toda essa sua filosofia, fosse europeu? Vou até mais perto, fosse argentino? O olhar seria outro em relação ao treinador, hoje, do Bahia. Ah, certamente sim. Tanto torcida quanto jogadores e imprensa dariam mais tempo, teriam mais paciência. 
Vi paciência lá no começo com Jesus. Vejo todo amor do mundo e paciência com Coudet, aqui no Inter. Com Sampaoli no Santos. E isso não vale só para treinadores. Jogadores também. Tanto que os que “hablam” tem mais tempo para mostrar o que sabem, a torcida tem, naturalmente, mais paciência. 
Sou um profundo admirador do Roger Machado. Já fui crítico dele por causa da postura, por vezes pacata. Porém, Roger é incrível. Como jogador, foi um monstro, multicampeão. Ganhou tudo no Grêmio e tenho maior orgulho disso. Como cidadão, a admiração cresceu ainda mais após a manifestação contra o racismo estrutural, após jogo do Brasileirão contra o Fluminense, em entrevista coletiva. Como treinador, falta o carinho e a paciência que os brasileiros têm com os que vem de fora. E além de tudo isso, Roger é preto. Precisa romper as barreiras do preconceito, o que é muito triste. 
Espero um dia ver Roger aqui no Grêmio de novo. Cria nossa, campeão, caráter incontestável. É de gente assim que o Grêmio precisa na casamata.


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